90 anos da Teoria Geral

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Leia artigo de João Neutzling Jr.

Poucas obras científicas tiveram tanto impacto mundial quanto A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda do economista inglês John Maynard Keynes (1883-1946). Publicada originalmente em 1936, a obra lançou as bases da macroeconomia moderna advogando a intervenção do estado na economia em momentos de depressão como forma de estimular o crescimento econômico.

Keynes já nos havia presenteado com As Consequências Econômicas da Paz (1919) onde ele argumentava que as reparações de guerra impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes (1919), depois da primeira guerra mundial (1914-1918), eram exageradas e que levariam a ruína e pobreza do país. O que efetivamente ocorreu quando em outubro/1923 a hiperinflação atingiu 29 mil % ao mês na Alemanha. A crise econômica caracterizada pela pobreza e elevada inflação facilitou a ascensão de Adolf Hitler ao poder.

Sobreveio a crise de 1929 que jogou o mundo em uma grade depressão com aumento na taxa de desemprego, que nos EUA, chegou a 20% da população. A economia de mercado por si só era incapaz de curar a recessão de forma autônoma. E a famosa Lei de Say que enunciava “toda oferta gera sua própria demanda” perdia sua validade diante de estoques acumulados não vendidos gerando mais desemprego.

Neste cenário de crise mundial é publicada a obra-prima de Keynes, A Teoria Geral que contrariava os preceitos clássicos do liberalismo e da não intervenção do estado na economia, ou seja, a livre ação das forças de oferta e demanda conduzem ao equilíbrio de mercado, o que não resolveu a crise de 29.

Keynes argumentava que a mão invisível do mercado não podia tirar o país da recessão sendo imprescindível uma política fiscal expansionista (gastos públicos maiores que receita fiscal) de modo aumentar a demanda efetiva global reduzindo a taxa de desemprego. Por isso Keynes era considerado o profeta do pleno emprego. Ele argumentava que o desemprego e o subinvestimento eram inerentes ao capitalismo dada sua instabilidade e incerteza.

Keynes desenvolveu o conceito de Propensão marginal a consumir (PmgC) que demonstra o quanto de aumento da renda (∆Y) é direcionado ao consumo (∆C) ou PmgC = (∆C / (∆Y). Quanto menor a renda individual maior sua PmgC e, vice versa, quanto maior a renda individual menor sua PmgC e maior sua propensão a poupar. Ou seja, aumentos na renda da classe alta não se direcionam ao consumo mas basicamente à poupança.

Na obra é apresentada o conceito de Eficiência Marginal do Capital (EmgK) que corresponde à expectativa de lucro de um investimento. Se a EmgK for maior que a taxa de juros o empresário realiza o investimento em bens de capital, do contrário ele aloca recursos no mercado financeiro reduzindo a formação de capital fixo.

Keynes era um apóstolo do “welfare state” ou estado do bem-estar social que garante padrões mínimos de renda, educação, saúde pública e seguridade social para os cidadãos. Um modelo que foi rejeitado pelo neoliberalismo.

Ler a obra de Keynes é compreender que o capitalismo tem crises cíclicas e uma natureza instável onde somente a ação interventiva e reguladora do estado pode corrigir crises econômicas como a de 1929 (crak da bolsa de valores), 1973 (choque do petróleo) e 2008 (subprime), entre tantas outras.

João Neutzling Jr
Economista,
Bacharel em Direito,
Mestre em Educação,
Auditor estadual,
Professor e escritor.
jntzjr@gmail.com

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