90 anos de um clássico
Leia artigo de João Neutzling Jr.
A sociologia é uma ciência que estuda os fenômenos sociais, sua evolução e interação com a economia, religião, política e demais institutos humanos. Sua importância reside na compreensão da dinâmica social e estabelecimento de políticas públicas geradoras de benefício social e econômico.
Neste contexto, uma das obras mais importantes da sociologia brasileira completa 90 anos: Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda (pai do notável Chico Buarque de Holanda), publicada originalmente pela editora José Olympio. Livro onde é marcante a influência de Max Weber (1864-1920). Ela encontra paralelo em alguns baluartes como Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire (1933), História Econômica do Brasil de Caio Prado Jr (1944) e, last but not the least, Formação Econômica do Brasil de Celso Furtado (1959).
O livro é dividido em sete capítulos: Fronteiras da Europa, Trabalho e Aventura, Herança Rural, O Semeador e o Ladrilhador, O Homem Cordial, Novos Tempos e Nossa Revolução.
Na obra o autor enfatiza alguns aspectos negativos da colonização portuguesa como a escravidão, o escoamento da riqueza mineral (ouro, prata, etc) do país para Portugal, genocídio indígena, déficit fiscal (despesa maior que receita) e o papel da igreja católica como simpatizante da escravidão e contrária aos avanços científicos. Outrossim, o interesse português em lucro máximo no curto prazo e nenhum interesse em permanecer no país fortalecendo sua prosperidade.
Ele argumenta ainda que o passado colonial brasileiro e o ruralismo seriam um obstáculo ao desenvolvimento de uma nação moderna.
O autor ainda enfatiza a diferença entre o trabalhador e o aventureiro. O trabalhador seria o tipo que planeja os riscos, se lança ao projeto pensando em longo prazo e de forma responsável. Por sua parte, o aventureiro é o oposto: busca riqueza fácil e rápida, sem precisar colocar muito empenho na tarefa. Trata-se de uma pessoa audaz, imprevidente e irresponsável.
Ele analisa os aspectos econômicos da estrutura latifundiária e a indústria como promotoras do desenvolvimento econômico e social.
Polêmico conceito é a ideia do homem cordial que se deixa levar pelo coração e pelas emoções ao invés de pautar sua conduta pela razão. Argumenta ainda que todas as mudanças sociais ocorridas no país foram impostas pelas elites dominantes sem ação das demais classe sociais (ou seja, de cima pra baixo) como a proclamação da república em 1889. Neste episódio, a aristocracia rural brasileira se apoderou da estrutura de poder sem a participação da classe operária, por exemplo.
Ele enfatiza que a democracia brasileira somente será plena quando feita de baixo para cima, isto é, das classes populares deve partir a iniciativa de mudança na estrutura social. Isto se coaduna com a teoria do intelectual orgânico de Antônio Gramsci (1891-1937) onde aquele que emerge de uma classe social específica e atua para articular, educar e transformar a sociedade em consonância com os interesses dessa classe.
Em sua homenagem, a Transpetro batizou uma de seus navios com seu nome Sérgio Buarque de Holanda.
Passados 90 anos sua obra permanece lúcida e pertinente, mas falta na sociologia brasileira um novo baluarte do pensamento científico para explicar a dinâmica social atual.

João Neutzling Jr
Economista, Bacharel em Direito, Mestre em Educação, Auditor estadual, Professor e escritor (jntzjr@gmail.com)

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