Encontros, Histórias e Transformações: CEAPE-Sindicato abre edição 2026 com palestra sobre saúde cerebral
Na última quinta-feira (9/9), ocorreu o 1º encontro da edição 2026 do Programa Encontros, Histórias e Transformações, com o tema “Mantendo o cérebro saudável”, apresentado pelo médico neurologista e neurofisiologista clínico José Victor Longo Martinez. Voltado aos auditores e auditoras aposentados do TCE-RS, o evento foi realizado no auditório da ASTC e, neste ano, conta com a coordenação da diretora Naira Floriano.
Na saudação de abertura, o presidente do CEAPE-Sindicato, Hildebrando Pereira, ressaltou que a entidade não deve se limitar às lutas corporativas do dia a dia, mas também se engajar em questões sociais amplas, como o combate à violência contra a mulher e os debates sobre igualdade de gênero e raça. Ele destacou ainda a importância de proporcionar um espaço de convivência para os colegas que ingressam na aposentadoria e deixam a rotina diária no Tribunal. “Espero que esse Programa se torne algo perene no nosso Ceape”, pontuou, reforçando o valor do evento como ponto de reunião e integração.
O cérebro envelhece
Em sua exposição, o neurologista José Victor Martinez lembrou que o envelhecimento traz um declínio natural das funções de todos os seres vivos, dividindo-se entre o desgaste biológico programado e o acúmulo de lesões decorrentes do estilo de vida. Ele desconstruiu o dualismo de tratar a mente como um software imaterial e o corpo como hardware: “O cérebro envelhece como qualquer outro órgão (coração, rins etc.) e exige cuidados físicos”.
O médico acrescentou que o aumento da longevidade no Brasil — onde a expectativa de vida saltou de 47 anos, na década de 1950, para mais de 70 anos atualmente — expõe a população a um risco maior de doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
Entre as principais causas de demência, o palestrante citou a Doença de Alzheimer, responsável por quase dois terços (60% a 70%) dos casos e caracterizada pela atrofia de regiões como o hipocampo (responsável pela memória). Mencionou também a Demência Vascular, provocada por microderrames decorrentes de condições sistêmicas, como hipertensão e diabetes, cujas lesões “cortam a fiação” de comunicação entre os neurônios, e a Demência Mista, que combina fatores vasculares ao processo do Alzheimer (juntas, ambas somam mais de 80% dos diagnósticos).
Sobre os fatores de risco, o especialista separou-os em três grupos: os não modificáveis (genética, sexo, raça e saúde dos pais na gestação); os dificilmente modificáveis (estresse crônico no trabalho e contexto socioeconômico da infância); e os potencialmente modificáveis, onde é possível agir diretamente (estilo de vida, alimentação, atividade física, hábitos de saúde, convívio social e estímulo cognitivo). A boa notícia, segundo o neurologista, é que nunca é tarde para começar: “Mudanças no estilo de vida geram impacto positivo e modificam o prognóstico em qualquer fase da vida”, afirmou.
Sistema antifrágil
Ao explicar que o cérebro e o corpo funcionam como sistemas antifrágeis — ou seja, necessitam de desafios para se fortalecer —, Martinez detalhou fatores que aceleram ou retardam o envelhecimento mental. Ele alertou para os riscos da perda auditiva não tratada, que aumenta em cerca de 50% o risco de demência por isolar o indivíduo socialmente, e do estresse crônico: “Enquanto o estresse agudo é útil para a reação imediata, o estresse contínuo eleva o cortisol e aumenta o risco de derrames, infartos e perda cognitiva”.
Diante desse quadro, o neurologista destacou a importância da higiene do sono. “O sono é essencial para a memória e para a ‘faxina’ metabólica do cérebro. Condições como a apneia e o hábito de usar o celular na cama prejudicam gravemente a saúde mental e física”, apontou. A prática regular de exercícios moderados (como caminhadas) e a socialização foram apontadas como as melhores ferramentas preventivas. Ele acrescentou que a convivência intergeracional traz uma troca rica: “Os jovens trazem dinamismo e entusiasmo, enquanto os mais velhos oferecem perspectiva e bagagem de vida, reduzindo o cinismo de ambos os lados”.
Reserva cognitiva
Por fim, Martinez ressaltou que a reserva cognitiva — construída por meio de escolaridade, leitura e atividades intelectuais — atua como um amortecedor contra doenças neurodegenerativas, adiando sintomas e preservando a autonomia. Para exercitá-la, indicou a leitura e práticas como o xadrez, fazendo um alerta contra o cansaço mental gerado pelo excesso de telas e pela multitarefa.
O especialista encerrou diferenciando a inteligência fluida (raciocínio rápido, que atinge o auge na juventude) da inteligência cristalizada (acúmulo de repertório e sabedoria prática, consolidado com o tempo). Essa maturidade confere aos mais velhos maior inteligência emocional e temperança, elementos fundamentais para decisões complexas que a ambição jovem muitas vezes não consegue suprir.






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