Nunca Mais

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Leia artigo de João Neutzling Jr.*

Em 24 de março de 1976, há 50 anos, um golpe de estado liderado pelos militares derrubou o governo de Isabelita Peron (viúva de Juan D. Perón). O golpe foi conduzido por Jorge Vidella e o país mergulhou em um período de trevas e crimes.

Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA, deu aval ao golpe conforme Kissinger approved Argentinian ‘dirty war’ | World news | The Guardian. Para ajudar, os EUA enviaram Daniel Mitrioni ao cone sul, especialista em técnicas de tortura.

O Congresso Nacional foi logo dissolvido e o Poder Judiciário amordaçado.

Mais de 30 mil argentinos desapareceram ou foram assassinados. Outros milhares fugiram do país.

No episódio dos voos da morte (vuelos de la muerte), dezenas de presos políticos como universitários, políticos de oposição, líderes sindicais e até as madres de la Plaza de Maio, depois de serem torturados nos porões da ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada) eram drogados com sonífero, tinha as pontas dos dedos cortados com um cutelo e a arcada dentária destruída com alicate para impedir a identificação do cadáver. Eles eram levados em um avião militar e jogados, ainda vivos!, no rio da Prata. Estima-se que quatro mil argentinos morreram desta forma. Conforme o livro El vuelo de Horacio Verbitsky (1995).

Para limpar a péssima imagem do governo militar, o país sediou a polêmica Copa do Mundo de 1978. A seleção brasileira, treinada por Claudio Coutinho, foi eliminada pelo saldo de gols depois de a Argentina aplicar uma suspeitíssima goleada de 6 x 0 no Peru. O país sede foi campeão com uma vitória de 3 x 1 contra a Holanda.

Depois da derrota humilhante na Guerra das Malvinas em 1982, os militares perderam todo apoio político e logo Raul Alfonsin foi eleito presidente em 1983. A democracia renascia depois de um período de trevas.

O julgamento dos militares envolvidos nos crimes da ditadura (1976-1983) ocorreu em 1985. A luta dos promotores Strassera e Ocampo não foi em vão. Emilio Massera e Jorge Vidella, entre outros facínoras, foram condenados à prisão perpétua no julgamento. Vidella entrou para a história como o verdadeiro cão de satanás na América Latina e morreu na prisão em 2013.

                      Outro indiciado foi Alfredo Astiz, o anjo loiro da morte, que já havia sido condenado à revelia na Itália e na França e foi condenado em 1985 a prisão perpétua por crimes de sequestro, tortura e assassinato de dezenas de civis, entre eles, Azucena Villaflor, fundadora das Madre de La Plaza de Mayo, associação civil que lutou contra os crimes da ditadura.

 Strassera terminou sua peça se acusação dizendo uma citação histórica: “Quero utilizar uma frase que não me pertence por que pertence a todo povo argentino, senhores Nunca Mais”, ou seja, nunca mais na história tais fatos hediondos e bestiais poderiam ocorrer. Quando ele terminou de falar toda a plateia bateu palmas ovacionando seu trabalho, muitos choravam e se esvaiam em lágrimas pelos mais de 30 mil civis brutalmente assassinados na ditadura.

E agora, o presidente Javier Milei da Argentina cortou verbas dos programas de memórias da ditadura militar e acenou com perdão aos genocidas condenados anulando o “nunca mais”.

É de chorar de tristeza assim como as mães da Plaza de Mayo choravam pelos filhos desparecidos.


*João Neutzling Jr. é Economista, Bacharel em Direito, Mestre em Educação, Auditor Estadual, Professor e Escritor (jntzjr@gmail.com)

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