Uma renúncia que custou 20 anos

Uma renúncia que custou 20 anos

João Neutzling Jr.*

Agosto é o mês do desgosto. Muitas coisas ruins ocorreram em agosto, como o criminoso ataque nuclear dos EUA em Hiroshima e Nagazaki, em 1945; suicídio de Vargas, em 1954; a morte de Juscelino Kubitschek, em 1976; a morte da Princesa Diana da Inglaterra, em 1997; a erupção do Vesúvio que arrasou Pompéia, no ano 79, entre outras tantas. Mas recordemos também a renúncia de Jânio Quadros, na presidência do Brasil, em 25 de agosto de 1961.
Eleito em 1960, por uma coligação de centro direita, Jânio foi eleito com a bandeira de varrer a corrupção, com jingle “Varre, varre vassourinha. Varre, varre a bandalheira, que o povo tá cansado de sofrer desta maneira”. Porém, abdicou do cargo meses depois, citando que “forças terríveis” conspiravam contra seu governo. O espanto foi imenso em todo o país.
Logo assumiu o vice João Goulart (PTB), que enfrentou forte oposição dos setores conservadores, bem como dos militares, os quais o acusavam de tentar promover uma revolução comunista no país.
Leonel Brizola, cunhado de Jango, liderou a corrente da legalidade em 1961 para que Jango tomasse posse. Como solução foi implantado um regime parlamentarista de modo a limitar os poderes de Jango, quando Tancredo Neves foi primeiro-ministro com poderes de governo.
Neste governo, o economista Celso Furtado lançou o Plano Trienal de Desenvolvimento (1962) para controlar a inflação, estimular o desenvolvimento econômico, além de promover reformas estruturais como a reforma agrária. Eram as famosas reformas de base, tão caras ao presidente João Goulart.
No lado da educação pública, o pedagogo Paulo Freire começou a alfabetização em grande escala, em tempo recorde, de trabalhadores rurais e cortadores de cana no sertão nordestino. Fato que desagradou a elite e a oligarquia agrária.
Até então tudo estava indo bem. O Brasil tinha uma política de desenvolvimento autônoma e fora da influência dos EUA. Porém, logo sobreveio o golpe de estado de 1964, amplamente documentado na obra “1964: A Conquista do Estado” de René Armand Dreifuss (1981).
Jânio Quadros teve os direitos políticos cassados, junto com Goulart e Juscelino Kubitscheck. Ficou no ostracismo durante muito tempo até recuperar os direitos plenos em 1974.
Durante o período militar, o Brasil experimentou a fase do milagre econômico (1968-1973) quando o crescimento do PIB chegou a 10% aa., em média. Foram realizadas obras de infraestrutura, tais como a Rodovia Transamazônica, as usinas hidrelétricas de Itaipu e Tucuruí, a Ferrovia do Aço, o Complexo Industrial de Suape, ponte Rio-Niterói, entre outras.
Mas o custo foi alto, em 1964 a dívida externa do Brasil era de US$ 3 bilhões e ao final do governo militar (João Figueiredo) saltou para US$ 100 bilhões. Um aumento de mais de 3.000%.
Houve também brutal aumento na concentração de renda, aumento da inflação, repressão política, assassinato de opositores do regime e casos de corrupção acobertados.
Jânio Quadros ainda fez a proeza de se eleger prefeito de São Paulo em 1985. Veio a falecer em 1992 sem deixar herdeiros políticos.
Tivesse ele concluído seu mandato sem os vintes anos de ditadura militar talvez estivéssemos hoje em um patamar mais avançado de democracia representativa. Em política é sempre bom abrir os olhos com os aventureiros.

*Economista, Bacharel em Direito, Mestre em Educação, Auditor estadual, Professor e escritor. jntzjr@gmail.com

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