250 anos de A Riqueza das Nações
Leia artigo de João Neutzling Jr.
A Economia como ciência social teve sua formatação ocorrida ao longo da história humana com a contribuição de vários estudiosos e pesquisadores.
Mas somente com Adam Smith (1723-1790) que a Economia alcançou autonomia científica. Smith nasceu na Escócia, estudou Filosofia e publicou em 1776, século XVIII, (mesmo ano da independência dos EUA) sua magnun opus “A Riqueza das Nações”. Trata-se de um calhamaço de quase mil páginas que codifica todo o conteúdo sobre economia até então conhecido.
A obra é composta de cinco livros. O livro primeiro trata do aprimoramento das forças produtivas do país. Smith argumenta que a divisão do trabalho e a especialização do operário são causas de aumento de produtividade da indústria e de redução do custo de produção unitário. A divisão do trabalho aumenta a destreza de cada trabalhador, é poupadora de tempo pois não é necessário passar de uma tarefa pra outra.
Este fato foi cientificamente comprovado por Henry Ford (1863-1947) em sua linha de produção em série. Smith também enfatiza o tamanho do mercado consumidor como elemento indutor do investimento privado. O moderno conceito de economia de escala é derivado dessa análise de Smith.
Ele também apresenta os conceitos de valor de uso como a capacidade de um produto satisfazer as necessidades humanas e valor de troca como a relação quantitativa na qual uma mercadoria pode ser trocada por outra. Por exemplo, um diamante tem elevado valor de troca pois pode ser trocado por muitos outros bens mas tem reduzido valor de uso, tem pouca utilidade prática. A água potável tem enorme valor de uso mas reduzido valor de troca por sua abundância. E os bens, em geral, tem elevado valor de troca dependendo da quantidade de trabalho neles incorporada, isto é, valor é trabalho cristalizado.
Smith ainda argumenta que a taxa de lucro do capital é inversamente proporcional ao custo de salário da mão-de-obra. O lucro do capital se reduz com aumento dos salários e se eleva com redução dos salários.
Isso tem duas implicações. O deslocamento das fábricas do hemisfério norte ocidental (onde os salários são elevados) para o sul da Ásia em busca de mão-de-obra mal remunerada para obter maiores lucros. E a segunda consequência é a subsituição da mão-de-obra por processos robotizados e automatizados para reduzir o quantitativo de empregados.
O livro segundo trata das diversas formas do capital financeiro a da definição da taxa de juros no mercado financeiro. O livro terceiro descreve como as interações agricultura – comércio contribuem para o desenvolvimento comunitário.
No livro quarto Smith apresenta uma defesa do comércio multilateral e trata das colônias e seu desenvolvimento. No livro quinto aborda o sistema tributário e a função da dúvida pública.
Ele criou o termo “mão invisível” para explicar como indivíduos, ao buscarem seus próprios interesses, acabam promovendo o bem‑estar coletivo por meio da autorregulação dos preços, da oferta e da demanda no mercado.
Ele argumentava “a busca da riqueza como meramente um aspecto do desejo de casa indivíduo de melhorar sua posição social. Este desejo está conosco desde o nascimento até o túmulo”(1)
O trabalho de Smith também inspirou os economistas Davi Ricardo (1772-1823) na sua defesa do liberalismo econômico e das vantagens comparativas e Karl Marx (1818-1883) na sua defesa do valor trabalho e comprovação da mais-valia.
Entretanto a obra de Smith falha em apontar disfuncionalidades do sistema capitalista tais como formação de monopólios (um único vendedor), monopsônio (um único comprador) e estruturas de concorrência imperfeita como oligopólios onde poucas empresas (atuando sob forma de cartel) manipulam preços praticando atos de abuso de poder econômico em prejuízo da sociedade. Além das deseconomias externas de produção que são efeitos negativos secundários da produção como poluição ambiental entre outros.
A cosmovisão de Smith, e europeia da época no século XVIII, era de uma Europa centro do universo e o resto mundo fornecendo matérias-primas e mão de obra barata sem nenhuma autodeterminação dos povos e total dependência das colônias em relação das metrópoles.
Preocupações sociais como elevada taxa de desemprego, bem-estar social, concentração de renda, subemprego, entre outras, não estavam na agenda do dia das monarquias dominantes. Apenas em 1789 quando eclodiu a revolução francesa temas desta natureza passaram a ser observados e foram ainda mais enfatizados com a Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII de 1891.
Adam Smith teve um papel fundamental na consolidação da Economia como ciência social autônoma e no caráter didático e multifuncional de A Riqueza das Nações. Obra seminal e até hoje relevante!
Referências:
RIMA, Ingrid. História do Pensamento Econômico, Ed Atlas, São Paulo, 1987, p. 100
Imagem: reproduçãoais
João Neutzling Jr. é economista, bacharel em Direito, mestre em Educação, Auditor estadual, professor e escritor (jntzjr@gmail.com)


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