A Tragédia de Milei

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Leia artigo de João Neutzling Jr.

Javier Milei tomou posse como presidente da Argentina em dezembro de 2023 com uma plataforma de governo ultraliberal e populista de direita. Ele é abertamente contra o aborto (inclusive em caso de estupro), negou publicamente o aquecimento global (fato comprovado por cientistas do mais alto nível) e apoia o armamento da população civil, entre outras bizarrices. Seu símbolo de campanha era uma motosserra para fazer cortes nos gastos públicos.

Pior que Milei, só o desgoverno de Carlos Menem (1989–1999), marcado por vários casos de corrupção e pela paridade cambial insana do peso com o dólar.

No campo econômico, a inflação desabou de 211% a.a. em 2023 para 33% a.a. até agosto de 2026. O salário mínimo na Argentina é de US$ 150,00, enquanto no Brasil é o dobro. A taxa de desemprego é de 8%, enquanto no Brasil está em 5,3% (uma das menores da história). Sua moeda está brutalmente desvalorizada, sendo que um dólar americano compra 1.524 pesos argentinos; aqui, um dólar custa 5 reais.

As reservas cambiais quase se esgotaram, o que obrigou o país a recorrer a um empréstimo de US$ 20 bilhões junto ao FMI. O Brasil quitou toda a sua dívida com o FMI em 2005. Ou seja, a Argentina está insolvente, sem recursos para pagar compromissos externos e totalmente dependente da ajuda dos EUA. O Brasil tem reservas cambiais de mais de 340 bilhões de dólares — uma solidez inquestionável.

A taxa de pobreza na Argentina saltou de 28,8% em 2025 para 32,3% da população; no Brasil, este índice é de 20%.

Recentemente, foi aprovada uma reforma trabalhista com o mesmo roteiro de sempre: fragilização das relações trabalhistas, aumento da insegurança no emprego, precarização das condições de trabalho e enfraquecimento do poder dos sindicatos.

As manifestações públicas contra o governo Milei estão cada vez mais fortes. Na recente “Marcha de la Bronca”, organizações sociais e sindicais, movimentos estudantis, grupos de direitos humanos e forças políticas de esquerda protestaram na histórica Plaza de Mayo contra os cortes de verbas nas políticas sociais do governo.

Como se não bastasse a grave situação interna, sua atuação na política internacional beira a insensatez! Em março deste ano, a ONU aprovou uma resolução declarando que o tráfico de escravizados africanos — cerca de 12,5 milhões de seres humanos sequestrados e vendidos como animais na América — foi o mais grave crime cometido contra a humanidade. A resolução ainda menciona o pagamento de indenizações aos países africanos, nada mais justo.

A decisão foi aprovada por 123 países (incluindo o Brasil) e apenas três votaram contra: EUA, Israel e… a Argentina! Ora, se o tráfico negreiro não foi o maior crime, qual teria sido então? O ataque nuclear dos EUA a Hiroshima e Nagasaki em 1945?

A Argentina enriqueceu ao final da Segunda Guerra Mundial ao exportar trigo, carne, laticínios, soja e demais produtos primários para uma Europa devastada pela guerra, acumulando enormes créditos cambiais que viabilizaram seu desenvolvimento econômico. Foi o primeiro país da América do Sul a ter metrô e teve baluartes na história, como Adolfo Pérez Esquivel e Jorge Luis Borges, além de cinco prêmios Nobel, entre outros méritos. Porém, desliza feio nas eleições ao escolher lideranças descomprometidas com os ideais latino-americanos de justiça e humanismo. Governos neoliberais fatalmente atuam contra seu próprio povo.

Que falta faz Lisandro de la Torre ao país vizinho!


Imagem: reproduçãoais


João Neutzling Jr. é economista, bacharel em Direito, mestre em Educação, Auditor estadual, professor e escritor (jntzjr@gmail.com)

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